[sabedoria]

ela só soube o quanto o amava quando passou dois dias sem vê-lo.
ele voltou,
deu-lhe dois beijos, dois tchaus e seguiu em direção ao arco-iris,
inteiramente pintado de azul.
:era rio de lágrimas sem ponto de origem.

ele não navegou para longe,
estava preso a ela por um curto fio vermelho.
– ele pensa em terra firme.
– ela pensa em cortar o fio.
– eles pensam que o rio pode secar.

 

\\escrito em 05.mai.09

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[caminho]

– Cala-te, silêncio,
pq o espaço que ocupas aqui dentro
é por demais extenso.

(no meio do caminho sempre se perdem algumas farpas,
joelhos antecedem braços no toque do chão,
lágrimas respingam sem pudor em qualquer superfície)

_O que eu não quero sempre tem lugar reservado
entre um copo e outro de soluços_
_O que eu não quero sempre se faz acompanhar
de uma porção de sombras secas ao sol_

(Ela soube se calar)

 

\\escrito em 26.abr.09

[ando reparando]

Observo que na embalagem do shampoo está escrito sua função de ‘reparador’. A máscara que substitui o condicionador estampa ser ela à base de ‘óleo reparação’. Afinal, o que ambos reparam? Reparam se algum fio caiu, se passou a ser branco da noite pro dia, ou repara nas nuvenzinhas que por vezes encobre a cabeça da pessoa? Feio isso de ficar reparando. A idéia de origem era que um lavasse e outro desembaraçasse. Só.

Como celular que apenas servisse de telefone, quando muito de agenda de números. O mais simples tem lanterna, os refinados daqui a pouco hão de substituir terapeutas e analistas e passarem eles também a reparar se você está bem.
– Vamos conversar sobre o que está havendo?, diz o 3 , 4 ou 5G que se terá em mãos.
Em tempos de Big Brother, a tendência deve ser mesmo essa, observarmos o que está em volta e deixarmos de considerar apenas o próprio umbigo, ainda que seja cada umbigo a medida do olhar em direção ao outro – isso se o umbigo não for apagado ou duplicado pelo Photoshop!
(Talvez eu devesse deixar de reparar no que está escrito na embalagem do shampoo e tomar meu banho sem gastar muita água.)

\\escrito em 24.abr.09

[soluções]

por dentro das ondas que me afagam os ouvidos.
caminho das conchas,
das águas salgadas que nos rodeia a mente.
mar que tantos amores tem para dar.

soluços de uma noite mal-dormida.
soluções simples para sonhos imediatos.

 

\\escrito em paris, 16.ago.2007)

[perolada]

pérola parada na garganta não tem porque sair.
segura entre fios vermelhos,
faz rédea curta do seu estofo e borda o tempo todo toalhinhas circulares.

cultiva consigo um espelho.
para saber-se sempre redonda, sua melhor forma.
não desejou ser rosa, nem cor nem flor.

curte saber-se originária do fundo do mar,
tal qual as sereias de quem ouve falar.

{e ela talvez seja igualmente mítica, a pérola que veio do fundo do mar da garganta}

[o vento e a luz]

fenômenos estranhos acontecem ao saltar de nuvens.
existem furos acidentais
texturas finas demais
– o risco de saltar é o mesmo de viver.

redemoinhos formatam um ballet numa amplitude de palco que comporta um balanço de cordas infinitas
tocando a todos num único acorde.
– todos acordam ao final do espetáculo.

o balanço começa lá em cima na nuvem do salto.
o movimento do redemoinho é pra lá e pra cá.
as nuvens fazem o mesmo, mas se desfazem em água pra ver o tempo passar em eternos recomeços.

(a luz encontra frestas nas nuvens que o vento leva)

 

\\escrito em 23.mar.09

[planos]

nem profundas aberturas,
nem silêncios ressonantes.
calma dada a cada passo, espessos como fios de cabelo.
– cada um é resguardado pelo receio de cair em si.

não soube o que houve
ao voltar às próprias origens.
foi com prazer que reapresentou
o que costurou em apenas dez centimetros de lógica
num dia que continha todos os outros
de antes e de então.

havia no avesso muito mais desenhos do que o previsto.
imprevisivel, montou ali os alicerces
pruma construção planificada.

ela queria uma saia rodada e uma blusa com gola rolê.

prontos para receber um adeus ou um abraço.

braços partidos em chão de cimento,
lajotas de plástico cheirando a óleo velho.
e flores revestidas de um tecido sintético.
tudo isso passa por debaixo da ponte suspensa no ar.

irrisória forma de se fazer compreender o universo.

dali por diante o sol da estrada há de queimar o barro,
e fazer subir por entre espaços inabitados o cheiro de uva e do molhado dos teus olhos.

 

\\escrito ao entrar na livraria shakespeare & co, paris, 13.ago.07
(em um cartaz estava escrito: ‘be not inhospitable to strangers. lest they be angels in disguise’)

[intermitente]

falei tanto tempo as palavras saídas da tua boca.
quis beijá-las, a ti.
compadeci-me da hora de um dos adeus
dado de súbito a porta de um mercado.

sentei na beirada de uma rua de mim
sem fim.
recomeço.
teus olhos ainda me olhavam quando passei por cima dos meus maiores medos de então.
e sorri leve num voo alto, raso, contínuo.
intermitente.

não considerei as apostas.
quis sair ganhando_
a você por toda a vida
a mim pelo tempo preciso.

sem esforço, alcancei o intento.
de plantar a teu lado uma árvore
e ver nela a criação dos sonhos.
em fitas rosas, em flores rosas,
em folhas amarelas e promessas amenas.

as lágrimas se distraíram em outro quintal.

[opacidade]

perdão por não te sorrir dentes perfeitos ou cantos novos.
os espaços apertados se limitam a um copo d’água, refresco de ideias acabadas.sou antes.
agora passo a andar pelas minhas pernas.
o corpo é mais do que se sabe.
túneis escuros dão de contra paredes sem tinta.
luzes opacas se veem fracas em abajures sem fio.

 

sigo coletando espaço e tempo.
aonde me consumo por horas a fio…
pele à mostra. passos encobertos por folhas de outono.
diálogos inexistentes.
vou pouco a pouco contar para mim estórias de um céu brilhante de se saber distante.
e ausente.

\\escrito em 15.fev.09

[encenação]

pronto. secaram-se as lágrimas, foram todas embora.
desfizeram-se e conseguiram abrir espaço aos gritos de um amanhecer dourado.

pode ser. pode ser uma beleza atrás da outra, enquadrada em relances, relatos.

está pronto. as ruas foram niveladas para não mais causar dor.
ressaca de mar aberto em duas partes, dois atos de uma cena única.

os parabéns são dados a todos.
pelos olhares recortados em quadrados, perfeitas imagens de espaços que não mais me contém.

volto-me e por ali vou.

 

\\escrito em paris, 2007

[tráfego]

não há amanhã de dia.
a noite nos cerca até que seja ontem, e nos trás pra hoje o que há de agora.

pérolas e mariscos, ouriços do mar, pássaros de bigode.

do meu passado pouco fica.
passo a limpo, limpo. sobram traças e traços de pegadas na areia.

meu corpo me trafega em silêncio.
há um corpo a me habitar até que eu tenha noção de mim.
(sou inteira e me divido para me saber.)

consigo iluminar um quarteirão.
não há porão.
há quintais em meio a fazendas extendidas em diversos metros quadrados.

plantações de uma vida.

 

\\escrito em paris, 2007

[sal]


voos inocentes soltam a memória
põe à mostra espaços inacabados de sonhos acontecidos, vividos, vãos.
inocentes e perdidos em ilusões.cores pálidas vestem espelhos entregues a sua própria sorte.
voa por baixo das ondas, das ordens impostas,
dos postes de luzes que guiam cegos.

no horizonte das estrelas perdem-se momentos preciosos.
cadentes, enevoadas, pulsantes,
dentro de um universo para poucos dispostos a navegar
num mar de lágrimas salgadas demais.

voa, liberdade, para além de tantos muros de papel arroz.

\\escrito em paris, 11.ago.07)

[levite]

eu fui partindo, partindo aos poucos, porque fui muitas por muito tempo.
havia um tempo em que não era nada. era por onde tudo começava e terminava.
eram sempre pedaços saindo por buracos inexistentes.
passageiros suaves, davam voltas na ilusão de preencher o que não existia.
o vazio de sonhar. o vazio de esperar.

e então tudo acontece de repente.
como um mar de lágrimas que se seca e se transforma num castelo de areia com quartos cheios de segredos.
vôos hipnóticos na alma de quem tudo sabe.
muros inabaláveis com luzes ao redor, fazendo com suas mãos redomas de amor.

eu conheço meus pés. só não sei pular.mas dei um salto mesmo assim, e deixei para trás o que não havia, o que não cabia, o que mais havia pra pular.

onde quer que eu caiba, eu vou flutuar.bolha de sabão, durando pouco, mas sendo leve.
leve isso consigo, o pouco que há de mim, para ficar em você.
o pouco que há de você para ficar aqui, entre encontros e partituras.
e estrelas de cinco pontas arredondadas.

 

\\escrito em 04.fev.09

[germinada]

se eu fosse mulher
talvez eu sonhasse de uma forma
ou de outra.

se eu fosse vento, bateria nas
portas pedindo punhados de sal.

sendo água, lanço tempestades
gratuitas sobre impermeáveis
plantações.

sendo terra, germino linhas
ininterruptas onde se escrevem
tortas poesias de um último
amor.

sendo ostra, me comporto reclusa
até que me abrir seja o ponto final da sentença.

 

\\escrito em 26.jan.09