[pb]

sou feita dessa aurora
do vazio das horas
intervalos complementares.

 

sequências inteiras em preto e branco
não condizem com minhas eventuais transparências.
tento ser desse tempo
mas me afogo em tentativas.

\\escrito em 26.jan.09
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[do manual de sobrevivência]

ela não sabia retroceder.

mas entendia de retrós. de linha. de bordar.
desacelerou ao ritmo de um única nuvem,
conselheira de possíveis sete cores.

caminhou de um lado ao outro da ponte,
extensa como o sentimento de um ano,
permeada de música (elefante) e beijo. dois.

pensou em saltar. mas viu que faltava-lhe asas. duas.
do desejo.
para saltar e sentir dor.
(((mas a dor já havia. e já a via de longe)))

não saltou nem se sobressaltou ao preferir ficar de pé.
andou.
havia em torno dela tudo que era sonho.
e ainda o que era real, complementando.

ouviu as duas palavras que adotaram juntos:
:estavam agora catalogadas no dicionário de sua estória.
– elas também pertenciam a salivas diversas.

\\escrito em 22.jan.09

[retido]

pequeno armazém de palavras esporádicas
separadas em ordem alfabética
— criam frases desordenadas.

sentido inverso à batida do coração
aversão ao abismo que se forma em dias contados.
corre.

olhou a imagem distante que seus olhos ainda retém:
diminuto, suficiente.
– avesso amor –

 

\\escrito em 21.jan.09

[flutuações]

de trás pra frente seguia sempre rumo ao desencontro,
:mesmo com a placa avisando ‘desnorteamento adiante’. 

deixou alguns laços nos espaços percorridos sem pressa.
deixou seus pés marcarem poças translúcidas.
deixou-se ficar longo tempo sem olhar o horizonte.

construiu num pé de cerejeira uma área de descanso.
na prateleira, algumas folhas em branco.
na cabeceira, seus sonhos.
na cabeça, palavras flutuantes, ressignificantes de seus dias.

suas noites eram só pensamentos,
imagens movimentadas recontando só o que quis ver.
às vezes, uma trilha se fazia ouvir.

ela implorou para ser de mármore
)era feita de cinzas continuamente vermelhas(

\\escrito em 19.jan.09

[via láctea]

preso nas nuvens,
envolto na chuva,
sem pontes para fazer uma descida suave.
uma única gota sua é capaz de fazer desabar estrondos,
cobrir o céu de fuligem,
arrancar copas de árvores a princípio secas.uma linha vermelha, na altura do horizonte,
demarca o espaço mínimo pra se contar o tempo da dor;
não fala em abreviações.

conta as estrelas que tem no bolso, pequena via láctea particular.
estende as entrelinhas tecidas em formato pranto por horas a fio
– os olhos querem apenas marear

em seguida, recompõe sua paisagem interna, habitada de cor.
às vezes só ela passeia por ali.

\\escrito em 19.jan.09

[encaixes]

encontro provisório nas casas que alugo para ser por horas.
portas fechadas não indicam nada, está sempre tudo aberto.

voltei a janela em direção ao sol, iluminar o que me adentra, meus poros internamente conservados como fatias de um grande lamento.

sonhos fazem sempre parte. doces ou não. sonhos me compõem e traduzem minhas canções basicamente inalteradas após tantas intervenções. cada dia altero uma palavra.

não sou feita de pedra. e qualquer matéria se encaixa aqui.
aprendi hoje um novo passo, para dois.
inequivocamente comecei sozinha. mas há sempre tempo prum concerto. ou conserto.
vou voltar nos pés que tenho, daqui pra diante e chegar ali, onde devo estar.

estou.

 

\\escrito em 26.mar.07)

[repensado]

por hora meu desassossego é violento. marquei na chuva um nome que nunca mais li.
ele foi pra mim o motivo das sombras em horas de sol intenso.
um refugio pras bocas abertas de tanto correr.
o respiro e o suor corrido eram os traços deixados nos corpos feitos de ar. e embora eu não soubesse como me atravessar, subi pra longe das minhas alturas, deixando os calcanhares livres sobre as pontes invisiveis.

repensando, assim me fiz do começo ao fim.

 

\\escrito em 11.fev.08

[amargoamar]

eu. subitamente convocada a destituir o lugar do chão.
derrubar estrelas, quebrar papéis.
fraca.
coração em remanso, ressaca.
insône, sem fome.
a dor do silêncio causando náusea.
hora a mais pra sentir.
hora demais pra doer desencantos.
sobrou pouco daquilo que eu me sabia.
no lugar me sobrou poesia, mas essa sendo sopro não produz vitória, é só descarga amargadoce se por ventura for lida.
eu hoje sou nada.

minha cristalina não me convence do mundo ainda existente. e a ponta dos dedos não mais alcança superfície alguma.
tiro certeiro na concentração de sonhos rosas,
sou hoje projeto em desconstrução.

lançado subitamente como estranho, os olhos pouco reconheceram do anjo agora estilhaçado.
anjo meu.
amargo. amar.

 

\\escrito em 30.nov.08

[pó]

tragédia orquestrada entre dois temporais.

palavras feitas de água salgada douraram ombros dobrados e olhos adiante. vermelhos.
ali não havia boa parte dos corpos. a parte boa.
mas houve.
um elefante. um peixe.
partituras.
cada um seguiu em horas separadas, separando instantes, estados d’alma.

poeira assentada há de ser pérola.

 

\\escrito em 08.jan.09

[coragem]

fazendo pedidos amorfos aos céus ,
desejando horas completas sem passagens por segundos humanos.
pesando corrente sanguínea e fluxo de informações,
a perfeição se esvai entre reflexões.
tardias.
ardor.
a pele soltando, pétalas que somos.
poros abertos fechando palavras nas bocas.

seguir adiante pode ser voltar um passo ou apenas fechar os olhos para mergulhar
nas pedras dos sonhos.
nas perdas que temos.
nos medos.

(coragem)
\\escrito em 29.dez.08